Filho de José Eduardo dos Santos ligado à rádio Vibe FM: quem é Joess Avelino Gourgel dos Santos e que outras estruturas empresariais controla em Angola?
Nos bastidores do panorama político e empresarial angolano, o nome Joess Avelino Gourgel dos Santos tem sido repetidamente associado a um conjunto de interesses económicos e posições de influência que, para a opinião pública, ultrapassam o “perfil de mero empresário”. Filho do falecido ex-presidente José Eduardo dos Santos, Joess é, segundo as informações que circulam na imprensa e em relatos sobre estruturas ligadas ao seu círculo familiar, apontado como figura com capacidade de participar ou beneficiar de operações económicas com forte componente estatal — desde financiamentos até incentivos fiscais.
Ao mesmo tempo, o seu nome aparece associado a áreas diversas do ecossistema mediático e corporativo, incluindo a esfera radiofónica. Neste contexto, surge a pergunta que domina as discussões públicas: até que ponto a proximidade com o poder se transforma, na prática, em vantagem empresarial, sobretudo quando os instrumentos usados são financiamentos do Estado e regimes fiscais desenhados para favorecer investimentos?
A Vibe FM Angola (88.3 FM) é uma rádio identificada como pertencente ao grupo Neo Vibe Angola. De acordo com a informação recolhida em descrições públicas do sector, a gestão da estação e do grupo estaria sob responsabilidade do diretor-geral Joess dos Santos, enquanto a coordenação-geral da programação seria liderada por Bruno Ivo.
A rádio apresenta-se com foco em música, cultura, entretenimento e estilo de vida em Luanda — isto é, um posicionamento típico de estações generalistas urbanas, que procuram audiência transversal e impacto junto do público jovem e das camadas ligadas à cena cultural da capital.
Num ambiente em que os media também refletem a geopolítica local (quem influencia, quem financia, quem controla), a ligação do nome Joess às estruturas de comunicação reforça a percepção — não necessariamente comprovada por lei ou regra específica, mas discutida pelo senso público — de que existe uma rede associada ao poder político e aos seus herdeiros.
Joess Avelino Gourgel dos Santos é descrito como arquiteto e empresário angolano, com reconhecimento público crescente por ser um dos filhos de José Eduardo dos Santos, ex-presidente de Angola.
Segundo os dados divulgados em perfis que circulam amplamente, Joess teria nascido em 28 de dezembro de 1988, fruto da relação do antigo estadista com Maria Bernarda Gourgel. Esses elementos biográficos, embora por si só não expliquem qualquer controvérsia, tornam-se relevantes quando entram em cena dinâmicas de acesso a oportunidades económicas associadas a contratos com o Estado, regimes fiscais e financiamentos públicos.
Na descrição de relações empresariais atribuídas ao seu grupo familiar, a Neosol é referida como tendo ficado com 80% do capital social da Angolplaste. A partir daí, argumenta-se que o filho do ex-presidente possuiria capacidade de domínio ou influência determinante sobre a empresa ligada à produção e ao sector de plásticos — um ramo estratégico tanto para embalagens alimentares como para cadeias industriais mais amplas.
Nesse encadeamento, são apontados factos recorrentes nas narrativas públicas:
- Joess dos Santos é filho de José Eduardo dos Santos;
- Joess dos Santos é mandatário/ligado à Neosol Investimentos;
- A Neosol Investimentos teria domínio sobre a Angolplaste.
A conclusão sugerida por parte da opinião pública é simples e incisiva: quando um investidor com ascendência política próxima do poder participa em cadeias empresariais que acabam em contratos com o Estado, a transparência deixa de ser opcional — torna-se exigência.
O ponto mais sensível do debate público surge quando entra em cena um decreto presidencial _ n.º 228/14, de 2 de setembro — que teria aprovado um contrato de investimento entre o Estado angolano e a Angolplaste, para a construção de uma fábrica de plásticos.
Conforme a descrição do cenário divulgado:
- A fábrica seria construída em parceria entre a Angolplaste e uma empresa sediada em Taizhou/ Taihzhou, na China;
- O investimento total rondaria 12 milhões e 150 mil dólares;
- Desse montante, mais de 9,7 milhões seriam provenientes de uma empresa ligada a Joess (com referência a financiamento bancário dentro de Angola, a ser discutido mais à frente).
Ao analisar o desenho do apoio estatal, o debate desloca-se do investimento em si para os mecanismos usados pelo Estado para promover (ou condicionar) a viabilidade económica.
De acordo com a cláusula apresentada por quem discute o tema, a cláusula 10.ª do contrato aprovado pelo decreto presidencial contemplaria benefícios como:
- Isenção do pagamento de Imposto Industrial por 3 anos;
- Isenção do pagamento de Imposto sobre a Aplicação de Capitais por 3 anos;
- Isenção do pagamento de Imposto de Sisa na aquisição de terrenos e imóveis vinculados ao investimento.
Para críticos e analistas, a soma desses benefícios, combinada com a natureza do financiador (aparentemente estatal) e a proximidade do beneficiário final a uma família presidencial, forma um quadro que excede o “normal” de um projecto industrial comum.
Os defensores da tese de que haveria um padrão de protecção familiar recorrem a um conceito comum em compliance: PEP (Pessoa Politicamente Exposta). A lógica é que, por ser alguém politicamente exposto (por laços familiares e pela relevância histórica do nome), a pessoa e as estruturas associadas deveriam ser tratadas com mais diligência, mais escrutínio e mais transparência:
É nesse ponto que a crítica assume forma jornalística:
não se acusa automaticamente um ilícito; questiona-se sim a legitimidade ética e a coerência institucional quando o Estado:
1) concede isenções fiscais;
2) financia projectos com capital público via bancos estatais;
3) o projecto está ligado a um círculo familiar associado ao poder.
No discurso público, há referência a declarações de Nekruma Beia, apontada como sócio-gerente da Neosol e sócia da Angolplaste, que em 2013 teria anunciado que o Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA) financiara a Neosol com 9,7 milhões de dólares para construção de uma fábrica.
O contraponto apresentado no debate é igualmente específico: segundo a narrativa dos críticos, o financiamento não teria ficado na Neosol como destino final, mas sim na empresa participada — Angolplaste — o que reforçaria a ideia de que o banco estatal teria sustentado directamente o empreendimento associado ao beneficiário ligado a Joess.
Assim, a leitura pública feita por quem critica o processo é dura:
- o Estado perdoa impostos ao grupo/beneficiário associado;
- o Estado financia a iniciativa industrial.
Outro elemento que amplia a controvérsia está na alegação de que a fábrica não teria começado do zero no momento anunciado: teria sido construída anteriormente na Zona Económica Especial de Viana, pelo Gabinete de Reconstrução Nacional, sob comando do general Manuel Hélder Vieira Dias Júnior (“Kopelipa”), então com papel ligado à Casa de Segurança do Presidente da República.
Na mesma descrição, sustenta-se que:
- a fábrica seria entregue a Joess como “oferta chave-na-mão”;
- Joess teria então “tudo pronto” para iniciar operação: importar matéria-prima, gerir a fábrica e avançar com a produção;
- ainda assim, apesar de supostamente pronta e financiada, o projecto estaria parado — com a acusação implícita de que o dinheiro poderia ter sido gasto sem retorno industrial.
A imagem simbólica usada para explicar essa alegada situação descreve o cenário como se fosse entregar um automóvel pronto a alguém que apenas precisaria “ligar o interruptor”, mas que falha em evitar que o projecto se perca.
Para agravar o debate, entra a questão do desempenho do BDA. Em relatórios e comunicados citados no discurso público, o banco teria sido confrontado com perdas acumuladas na ordem de centenas de milhões de dólares, com risco de perder empréstimos.
No argumento dos críticos, isso serviria para reforçar uma pergunta:
*como é possível que, ao mesmo tempo em que o banco enfrenta problemas de gestão e controlo, créditos tenham sido canalizados para projectos ligados a familiares de altas figuras políticas?
Segundo a narrativa mencionada, o presidente do Conselho de Administração do BDA, Manuel Neto da Costa, teria atribuído a situação a má gestão de concessão e controlo, com referência a grande parte dos empréstimos destinados a projectos mal estruturados e sem garantias suficientes.
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Além do campo económico, o nome de Joess também ganhou visibilidade em fases da vida pessoal que foram amplamente noticiadas.
Em 2019, surgiram referências na imprensa angolana sobre um relacionamento e planos de noivado com Cristina Giovanna Dias Lourenço, filha do então atual Presidente João Lourenço. A narrativa dizia que seria uma união simbólica entre famílias dos dois principais chefes de Estado da história recente do país — mas o relacionamento terá terminado antes de se concretizar o casamento.
Mais tarde, em 2021, Joess teria oficializado um noivado e casado com Helga dos Santos. Na mesma sequência noticiada, o casamento teria provocado retorno temporário do pai a Luanda após anos em Espanha.
Quanto à paternidade, o casal teria tido a primeira filha, Zuri Elani dos Santos, nascida em meados de 2023.
Ainda que esses episódios pertençam ao domínio privado, a razão pela qual entram no texto jornalístico é clara: quando se tem um nome associado ao poder, a vida pessoal torna-se também elemento de leitura pública, quase sempre com interpretação política e social.
No cruzamento entre empresas, benefícios fiscais, financiamento bancário estatal e contratos aprovados por decreto, o caso associado a Joess Avelino Gourgel dos Santos torna-se um campo fértil para discussão pública.
A pergunta que permanece — e que a própria estrutura do debate sugere — é menos “quem é o filho” e mais “como o Estado interage com ele (e com o seu grupo) quando o peso do nome histórico aumenta a relevância do escrutínio”.
Para a sociedade angolana, a transparência não é uma formalidade: é um requisito para garantir que investimentos sejam promovidos por mérito e viabilidade técnica, e não por proximidade ao poder.

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