General Tavares tira do saco azul do governo angolano dinheiro para patrocinar o Progresso do Sambizanga




O histórico Progresso Associação do Sambizanga (PAS) prepara-se para sair de um dos períodos mais difíceis da sua existência, depois de vários anos marcados por crise financeira, paralisação competitiva e degradação de infra-estruturas. O processo de revitalização ganhou novo impulso com a eleição de Edson Santos para a presidência do clube e, sobretudo, com o envolvimento directo do general José Tavares, figura influente com fortes ligações ao bairro do Sambizanga.



O Progresso entrou em declínio acentuado após 2020, quando o então presidente Paixão Júnior abandonou o cargo alegando dificuldades financeiras agravadas pela pandemia. Auditorias internas posteriores revelaram a existência de um passivo considerável, situação que comprometeu a actividade desportiva e afastou patrocinadores, deixando o clube praticamente inoperante durante vários anos.

 

Perante o risco de desaparecimento de um dos símbolos desportivos mais emblemáticos de Luanda, associados e figuras influentes do Sambizanga mobilizaram-se para encontrar soluções. Foi neste contexto que surgiu o nome de José Tavares, que aceitou apoiar o processo de recuperação institucional e financeira, assumindo um papel de facilitador na mobilização de apoios políticos, empresariais e sociais.

 

Fontes próximas do processo indicam que o general terá assumido o projecto como uma causa pessoal, motivado pela sua ligação histórica ao bairro onde nasceu e cresceu antes de ingressar na luta armada do MPLA e posteriormente seguir para formação militar na antiga União Soviética. O envolvimento inclui contactos para captação de recursos, reorganização administrativa e definição de uma estratégia para o regresso competitivo ao Girabola.

 

A nova direcção, liderada por Edson Santos — eleito com 87 votos a favor e quatro contra — definiu como prioridade imediata a reabilitação das infra-estruturas, consideradas essenciais para atrair patrocinadores e garantir sustentabilidade financeira. A ambição passa por reconstruir a credibilidade institucional e devolver o clube ao convívio dos principais escalões do futebol nacional.

 

Embora a presença de dirigentes ligados ao MPLA na gestão de clubes seja uma realidade recorrente em Angola, observadores consideram que, neste caso, o factor determinante é a dimensão simbólica do Progresso para o Sambizanga e a ligação emocional de Tavares ao bairro. Durante o consulado do ex-Presidente José Eduardo dos Santos, o general já liderava iniciativas comunitárias locais, nomeadamente através da Associação Akwa Sambila, mantendo até hoje influência social na zona.

 

Além do apoio ao Progresso, fontes locais referem que Tavares também terá contribuído para iniciativas culturais, incluindo apoio ao grupo carnavalesco Kiela, que recentemente alcançou o segundo lugar no Carnaval de Luanda, reforçando a sua imagem de patrono comunitário.



O general José Tavares seu papel começou a ser notado meses antes das eleições de 2017, quando João Lourenço sentiu que na altura não tinha total apoio da entourage de José Eduardo dos Santos e criou uma estrutura paralela, coordenada por José Tavares, que incluía jovens turcos, como Esteves Hilário. Apesar de operar de maneira discreta, a direção de José Eduardo dos Santos, ao tomar conhecimento, deste grupo nunca convocou uma reunião dos CAP para acusá-los de tentar desestabilizar o partido.


Em 2021, quando João Lourenço na condição de líder do partido reintegrou o dirigente Bento Francisco Bento para comandar o Comitê Provincial de Luanda, foi confiado ao general José Tavares o papel de "financeiro informal", sendo-lhe atribuída a gestão de um "saco azul", que administrava por meio de uma associação que lidera, a Associação dos Naturais, Descendentes e Amigos do Distrito Urbano (Akwa-Sambila), em Luanda.

O escritório de advocacia BMF, pertencente ao advogado pessoal de José Ferreira Tavares, Bruce Manzambi Filipe, foi disponibilizado a dois antigos militantes da UNITA que, junto ao Tribunal Constitucional, impugnaram o congresso de 2019 que elegeu Adalberto Costa Júnior à presidência da UNITA, sob o argumento de que ele seria "cidadão português". Este movimento fazia parte de uma estratégia maior coordenada por Tavares, com o objetivo de minar a oposição e preservar o poder do Presidente João Lourenço.


Nesta nova fase, ao saber que altos quadros da direção do partido defendiam um congresso democrático, João Lourenço convocou o general José Tavares Ferreira para participar de um encontro em que atacou pessoalmente o histórico do MPLA, Julião Paulo “Dino Matross”. No final de agosto, convocou os CAP do MPLA para uma reunião, onde expôs o tema, abrindo caminho para uma campanha de insultos públicos, nas quais veteranos como Fernando da Piedade Dias dos Santos e Dino Matross foram os principais alvos nas redes sociais.

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