Um caso que ultrapassa a política e entra no domínio do interesse público global
As denúncias divulgadas pelo portal de investigação Maka Angola sobre a gestão de fundos do Instituto Nacional de Segurança Social (INSS) durante o consulado de António Domingos Costa Pitra Neto reabriram uma questão estrutural que há décadas atravessa o Estado angolano: como altos responsáveis públicos, sem passado empresarial conhecido, emergem posteriormente ligados a negócios de escala milionária — sem explicação pública credível sobre a origem do capital.
O caso deixou de ser apenas sobre investimentos imobiliários mal-sucedidos. Tornou-se uma questão de integridade patrimonial, conflito de interesses e possível captura institucional de um fundo que pertence, por lei, aos trabalhadores e pensionistas angolanos.
A pergunta que ninguém responde: de onde veio o dinheiro?
Na sua reação pública, Pitra Neto rejeita qualquer ilegalidade e afirma que tudo foi feito “dentro da lei”. Contudo, a legalidade formal não responde à pergunta essencial que permanece sem esclarecimento:
Como um quadro cuja trajectória conhecida é essencialmente a de funcionário público e dirigente político acedeu — directa ou indirectamente — a circuitos empresariais e imobiliários de valor multimilionário?
A biografia pública de Pitra Neto, disponível em registos institucionais, arquivos governamentais e fontes abertas, não regista actividade empresarial relevante anterior ao exercício de cargos públicos de alto nível.
Não constam:
empresas fundadas antes da vida política;
heranças declaradas de grande monta;
carreiras privadas geradoras de capital significativo;
nem histórico de investimentos compatíveis com os valores hoje associados ao seu nome.
Apesar disso, Pitra Neto surge ligado — por relações, decisões, influência ou proximidade — a projectos imobiliários avaliados em centenas de milhões de dólares, financiados em larga medida por recursos públicos do INSS.
Até hoje, não foi apresentada uma narrativa financeira coerente, documentada e verificável que explique essa transição económica.
INSS: fundo social transformado em alavanca de negócios privados?
Durante o período em análise, o INSS canalizou recursos para projectos como:
Condomínio Atelier dos Sonhos
Luanda Medical Center (LMC)
Edifício Consolação
King’s Tower
Centro Logístico do Talatona
Segundo investigações do Maka Angola, estes investimentos apresentam padrões clássicos de risco institucional:
baixa transparência na selecção de parceiros;
concentração recorrente nos mesmos promotores privados;
retorno financeiro limitado ou inexistente;
exposição excessiva do fundo público ao risco imobiliário.
Especialistas internacionais em fundos de pensões ouvidos pelo Midia News Grupos sublinham que nenhum fundo de segurança social responsável opera desta forma sem escrutínio extremo, porque cada dólar investido representa contribuições obrigatórias de trabalhadores.
“Nunca houve prejuízo”: afirmação sem prova independente
Pitra Neto afirma que o INSS “nunca teve prejuízo”. No entanto:
não existem auditorias públicas independentes consolidadas que sustentem essa afirmação;
não foram divulgados relatórios de rentabilidade líquida ajustada ao risco;
nem avaliações externas de mercado sobre o valor real dos activos.
Auditores internacionais alertam que activos imobiliários ilíquidos podem esconder perdas reais durante anos, especialmente quando há sobreavaliação inicial, custos de manutenção elevados e ausência de retorno efectivo.
Luanda Medical Center: quando o próprio visado admite o fracasso financeiro
No caso do Luanda Medical Center, Pitra Neto reconhece que o projecto não gerou retorno financeiro significativo. Ainda assim, justifica o investimento com base numa alegada função social.
Desde quando um fundo de segurança social pode assumir prejuízos estruturais em nome de políticas públicas que competem ao Orçamento Geral do Estado?
Para analistas, este argumento confirma a distorção do mandato do INSS, usado como instrumento político-financeiro, e não como gestor prudente das contribuições dos cidadãos.
Minoru Dondo: coincidência isolada ou padrão sistémico?
Outro elemento crítico é a recorrência persistente de empresas ligadas a Valdomiro Minoru Dondo nos investimentos do INSS durante o mesmo ciclo político.
Pitra Neto afirma que poucas empresas tinham capacidade técnica. Contudo, operadores do sector afirmam nunca ter tido acesso a concursos transparentes, não são conhecidos processos públicos competitivos abertos e a repetição do mesmo parceiro é um indicador clássico de risco de favorecimento, segundo padrões internacionais de combate à corrupção.
O silêncio patrimonial
Talvez o aspecto mais perturbador do caso seja o silêncio em torno da evolução patrimonial de Pitra Neto. Até hoje, não são públicos:
declarações patrimoniais detalhadas e auditadas;
cronologia da aquisição de activos;
fontes exactas de financiamento;
nem esclarecimentos sobre relações empresariais indirectas.
Num contexto internacional, este padrão é conhecido como “incompatibilidade patrimonial não explicada” — um dos principais gatilhos para investigações por lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito.
Disponibilidade para investigação: o momento da verdade
Pitra Neto afirma estar disponível para colaborar com as autoridades. Para investigadores independentes, isso só terá credibilidade se houver auditoria patrimonial integral e independente, abertura total dos contratos do INSS, rastreio dos fluxos financeiros e esclarecimento público da origem do capital associado ao seu nome.
Até lá, a negação genérica não dissipa a suspeita — apenas a adia.
Conclusão: o problema não é apenas Pitra Neto
O caso Pitra Neto não é um episódio isolado. É sintoma de um sistema onde fundos sociais são transformados em instrumentos de acumulação privada, sem prestação de contas efectiva.
Num Estado de Direito funcional, não é o jornalista que deve provar o crime — é o detentor do poder que deve explicar a riqueza.
Enquanto essa explicação não existir, o caso permanece aberto.

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